Covid-19: Porto Esperidião tem mais de 60% de óbitos de indígenas chiquitanos

Por: Lívia Alcântara/Formad
Na "capital chiquitana", o Curussé, manifestação cultural indígena, perde festeiros para o coronavírus.

No dia 15 de julho, o município de Porto Esperidião, em Mato Grosso, totalizava 264 casos confirmados e 12 óbitos por Covid-19. Segundo moradores do local, das 12 mortes, 8 eram de chiquitanos não aldeados e nem todos reivindicam a identidade indígena. A contabilização informal, partilhada por moradores, tem sido feita através dos sobrenomes, explica José Roberto de Oliveira Rodrigues, primeiro vereador e prefeito chiquitano do município. 


Entre os que deixaram Porto Esperidião, estão personagens importantes do Curussé, manifestação cultural carnavalesca. Uma dessas pessoas era Maria Assunta Mendes, uma das que recebia a festa em sua casa. Manoel Inácio Massay Mendes, seu filho, conta que ela estava com a diabetes muito alta e foi internada em Cuiabá. Segundo ele, o primeiro teste de Covid-19, realizado em Porto Esperidião, atestou negativo, mas ao chegar na capital mato-grossense a doença foi confirmada.

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Curussé, manifestação cultural do povo Chiquitano. Foto cedida por Manoel Inácio Massay Mendes.

 

Traçar um panorama do impacto da pandemia  na vida e na cultura da chiquitania é algo complexo. Primeiro porque eles estão dispersos por vários municípios sem que seu território originário tenha sido demarcado, segundo porque boa parte deles teve suas identidades indígenas massacradas pelo processo de colonização da fronteira do Brasil com a Bolívia. “Nós temos muitos chiquitanos que não se assumem como chiquitanos. No censo de 2010 os que se disseram chiquitanos são 412, mas se a gente contar todas as famílias nas várias periferias, a gente sem dúvida chega a uns 20.000”, explica Aloir Pacini, antropólogo que escreveu sua tese de doutorado sobre a identidade étnica desse povo.

 

Os chiquitanos não aldeados e a alta vulnerabilidade à Covid-19

 

A ausência de território demarcado faz parte da realidade dos chiquitanos no Brasil. Atualmente eles estão espalhados no sudoeste e centro-sul mato-grossenses, nos municípios de Cáceres, Porto Esperidião, Pontes e Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade. Vivem nas periferias das cidades, zonas rurais, em loteamentos, assentamentos e até na beira de estradas. Na Terra Indígena Portal do Encantado (em processo de demarcação) vivem 432 chiquitanos, segundo dados de 2019 da  Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). 

 

Devido ao processo de colonização da fronteira com a Bolívia, os Chiquitanos tiveram suas terras ocupadas por destacamentos militares, fazendeiros e outros. “Nós sabemos que as pessoas não estão todas concentradas dentro das aldeias por diversos motivos. Existem os chiquitanos que foram coagidos pelos invasores, fazendeiros”, explica Soilo Urupe Chue, chiquitano e integrante da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt).

 

Essa situação torna esse povo ainda mais vulnerável que outros indígenas que possuem terras onde podem plantar, caçar e pescar. No bairro Aeroporto, em Porto Esperidião, toda a família de indígenas não aldeados de Aguinaldo Muquissai Massavi contraíram Covid-19. “São 32 pessoas que se identificam como indígenas no nosso bairro, na minha família somos 15, todos nós pegamos Covid”, relata. Agnaldo e seu pai ficaram internados por nove dias e seu irmão cinco, mas todos se salvaram da doença.

 

Em Jardim Aeroporto, periferia do município de Vila Bela de Santíssima Trindade a situação é uma das mais graves. Boa parte das famílias vivem do trabalho informal, algumas não têm recursos para alimentação e sequer para pagar o aluguel. “Nós, enquanto chiquinato, que moramos aqui na cidade principalmente estamos reivindicando terra, porque a maioria mora de aluguel, não temos espaço nenhum, não temos apoio da parte dos nossos governantes”, explica Feliciana Maconho Paez, da Organização Chiquitana Aeroporto (OCA). Após visita ao bairro, o Instituto Carol, com sede em Cuiabá, lançou a campanha “Chiqui é ajudar” para adquirir alimentos da agroecologia para esta comunidade.

 

Embora situações como essas possam ser mapeadas, é difícil dimensionar os efeitos da Covid-19 nos Chiquitanos. Muitos deles não reivindicam a identidade indígena. “No caso das periferias, temos uma situação dramática, porque se tem alguns bairros que se assumem chiquitanos por mobilização política, nos outros lugares não tem esta organização”, explica Aloir Pacini. Para além da afirmação identitária, os que se entendem enquanto indígenas não aldeados estão fora do mapeamento da Sesai. Até o dia 22 de julho, a secretaria identificava 12 chiquitanos infectados e 7 casos suspeitos na T.I. Portal do Encantado. No entanto, não faz referência a outras possíveis mortes fora das aldeias.

 

Curussé perde seus festeiros para a Covid-19

 

Ainda que sem o reconhecimento de seus territórios tradicionais, a cultura e os conhecimentos chiquitanos permanecem enraizados nos municípios nos quais participaram da construção e neste momento está ameaçada pelo alastramento da Covid-19 no estado de Mato Grosso.Este é o caso do Curussé, uma manifestação carnavalesca que por quatro dias realiza cortejos com música, dança e culinária típica. 

 

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Na foto Manoel Inácio Massay Mendes toca durante a manifestação do Curussé. Foto cedida por Manoel Inácio Massay Mendes.

 

Em Porto Esperidião, existem três grupos que fazem a festa e se revezam para recebê-la a cada ano. A dona de uma destas casas, Maria Assunta Mendes, foi vítima da doença. “A nossa casa recebia o Curussé, até porque nós somos músicos, meu pai é músico, meus irmãos, todos somos”, conta seu filho, Manoel Inácio Massay Mendes. Seu pai, além de músico, é artesão e fabrica os instrumentos musicais usados no Curussé. Além de Maria, também foram vítimas da doença Teodoro, que era tocador de caixa do grupo Asa Branca e Antônio Lourenço, do grupo Nativo, que era festeiro e juiz da festa, aquele que determinava o ritmo dos toques. Também faleceu Luzia Sié, do grupo Asa Branca que contribuía com culinária do festejo. “Não é só a perda do cidadão chiquitano, é também uma perda irreparável da cultura”, lamenta o ex-prefeito José Roberto de Oliveira Rodrigues.

 

A medicina tradicional chiquitana contra o coronavírus

 

Para além do Curussé, as ervas medicinais dos Chiquitanos são outra tradição presente nas populações destas regiões. Roselino Parava Ramos, da aldeia Naltukirsch Piciorsch, se orgulha em dizer que até o momento da entrevista, dos oito infectados pela Covid-19 na T.I. Portal do Encantado, nenhum teve os sintomas graves da doença. “Foi descoberto que nossas ervas era um dos fatos que preveniu muito”, explica ao contar sobre a fama dos “remédios naturais” na região.

 

O povo Chiquitano foi formado por mais de 40 etnias, o que resultou em uma diversidade de conhecimentos sobre as ervas e os cultivos e uma prática de plantar em qualquer quintal ou pequeno pedaço de terra que possuam. “Nós trabalhamos muito com as ervas medicinais, nossos pajés, curandeiros e parteiras conhecem muito as ervas. Nós andamos sempre preparados, consumindo no cotidiano”, explica José Arruda Mendes, cacique da aldeia Acorizal, na T.I. Portal do Encantado. 

 

O antropólogo Aloir Pacini ressalta que os cuidados com alimentação e os conhecimentos das ervas são fatores importantes em como este povo tem enfrentado a pandemia. “O que é impressionante é a tradição deles de uso de chás e medicamentos naturais. Eles usam muitas plantas para cuidar da sua saúde, para banho. Eles têm conseguido manter a saúde porque eles têm uma alimentação bastante equilibrada”. 

 

No entanto, a demora pela demarcação do território tem implicado no avanço do desmatamento e no aumento do uso de agrotóxicos sobre suas terras, o que coloca em ameaça direta esses conhecimentos medicinais. “Com o avanço dos desmatamentos nos arredores das aldeias as ervas medicinais do nosso povo ficam cada vez mais escassas”, explica Saturnina Urupe Chue, da aldeia Vila Nova Barbecho localizada no município de Porto Esperidião. 

 

Perguntado sobre um sonho para o seu povo, o cacique José disse ser o território. “Defendemos nossos direitos à terra até porque o nosso povo ainda não tem nem uma terra demarcada e com essa doença somos muito prejudicados por não podermos sair para nos defender”. 

 

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