Índios genéricos, cantilenas e o desenvolvimento de Mato Grosso

Elton Domingues Rivas[1] –  Nas últimas semanas tenho acompanhado com apreensão alguns posicionamentos de nossa classe política e também de determinados setores da imprensa mato-grossense em relação aos povos indígenas em Mato Grosso. Recorrendo a antiga cantilena de que há "muita terra para pouco índio", de que as terras indígenas são um obstáculo ao desenvolvimento econômico e de que os “índios”, incontroláveis, são uma ameaça a ordem e à legalidade em nosso estado.

Determinadas posturas, reivindicam não apenas o descumprimento dos procedimentos democráticos que orientam os processos demarcatórios, mas o desprezo aos princípios constitucionais que asseguram aos índios "direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam", sendo competência da União Federal sua demarcação e proteção (art. 231 da Constituição Federal). Numa democracia cabe aos nossos representantes e também a todo e qualquer cidadão o conhecimento e a defesa de nossa Carta Magna.

Tais falácias não apenas evidenciam o despreparo de muitos de nossos parlamentares e autoridades, que não só ignoram o fato de Mato Grosso abrigar cerca de 40 diferentes etnias, num universo de culturas tão diferentes entre si, que a simples menção da palavra índios incorre em um erro que não só anula a diversidade, como também confina todos os povos numa só definição, a do índio genérico, alargando ainda mais a fenda entre o real e o imaginário.

É como se nos referíssemos aos “políticos” como se todos fossem corruptos, oportunistas, portadores e defensores de projetos pessoais que em nada se assemelham aos anseios daqueles que deveriam representar. Reduções, representações simplistas, por mais que soem reais, podem nos jogar na perigosa armadilha das aparências, do senso comum e do preconceito.

É lamentável ainda que determinados jornalistas utilizem-se de seus espaços na imprensa para acirrar ainda mais o histórico desencontro entre índios e não-índios. Muitos cadáveres e muito sangue já foram derramados em Mato Grosso na esteira desses conflitos. Como esquecer o massacre dos índios Cinta-Larga, conhecido como a Chacina do Paralelo 11 em novembro de 1963, ou os assassinatos do missionário Vicente Canhas, ocorrido em 06 de abril de 1987 e o do padre Rodolfo Lukenbein em 1976 na aldeia Meruri, juntamente com o índio Simão Bororo.

Fato que é mais agravante ainda se considerarmos que existem poucos canais e espaços para a expressão diretamente indígena no cenário cultural e político do país. Em geral vivem em locais de difícil acesso, com tradições basicamente orais de comunicação e na condição de monolíngues, sendo o português sua segunda língua. Os povos indígenas ainda encontram inúmeras barreiras para se expressar livremente com o mundo dos não-índios, utilizando-se de intermediários para esse fim e, cabe aqui a ressalva de que toda tradução é em si, uma interpretação.

Não é possível resolver os impasses relacionados à questão indígena sem obrigatoriamente passar pela solução de alguns problemas nacionais como a modificação da estrutura agrária, a proteção ao meio ambiente, a geração de novas alternativas de emprego, o desenvolvimento sustentável, os direitos das minorias, a cidadania e inclusão social.

O que deveria estar em pauta, na realidade, é o modelo que o estado de Mato Grosso e o país desejam para si e qual o papel dos índios, do meio ambiente, das comunidades tradicionais, entre outros, nesse modelo.

A riqueza de Mato Grosso, não está somente na agroindústria, em suas madeiras, nos recursos hídricos ou minerais, mas também na biodiversidade e nos conhecimentos de que se dispõe acerca dela. Está também na diversidade cultural de sua gente, entre elas os indígenas, que formam um mosaico de línguas e tradições reconhecidos como patrimônios culturais da humanidade.

[1] Elton Domingues Rivas, jornalista, mestre em Estudos Culturais é professor e documentarista em Mato Grosso.
*Artigo publicado originalmente na Revista Sina

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