Catar coquinho é um bom negócio

Globo Amazônia – Gisele Neuls* – É comum ouvirmos de muitos empresários a crítica de que o agroextrativismo e o manejo florestal de produtos não-madeireiros não é um negócio rentável. Pois um projeto em desenvolvimento no Noroeste de Mato Grosso está mostrando que, além de um bom negócio, a coleta produtos da floresta é um caminho viável para minimizar conflitos e garantir emprego e renda para um número significativo de famílias. Para isso, no entanto, é preciso investir seriamente em desenvolvimento de tecnologia e apoiar a organização social das comunidades extrativistas.

A experiência em andamento nos municípios de Aripuanã, Castanheira, Colniza, Cotriguaçu, Juína Juruena e Rondolândia, localizados na margem esquerda do rio Juruena, mostra que o agroextrativismo é uma atividade econômica importante do ponto de vista social e ecológico, e viável economicamente. O projeto, desenvolvido em parceria pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) beneficia 2.200 pessoas, três etnias indígenas, três assentamentos e uma reserva extrativista, abarcando uma área de 1 milhão de hectares.

A iniciativa, chamada Programa Integrado da Castanha, engajou todos na coleta, beneficiamento e venda da castanha-do-brasil – ainda conhecida no Sul e Sudeste do Brasil como castanha-do-pará. Fazem parte desta inciativa indígenas das etnias Arara, Rikbaktsa e Zoró; extrativistas da Reserva Guariba-Roosevelt e agricultores dos assentamentos Vale do Amanhecer, Lontra e Juruena. O princípio é simples: aproveitar o melhor de cada um. Os indígenas são experts na coleta das castanha, e ajudam os extrativistas e assentados a dominarem a técnica. Os assentados dominam as máquinas para secagem, armazenamento e embalagem. Todos coletam, processam, vendem e repartem o benefício.

Com apoio dos técnicos do projeto, todos melhoraram suas práticas de coleta, processamento e armazenamento da castanha. Este ano a quebra na safra foi de apenas 11% e os preços passaram dos R$ 8,00 pagos pelos atravessadores nos anos anteriores, para R$ 21,00 a lata, vendidas diretamente para uma rede nacional de supermercados, em parceria com a empresa Ouro Verde Amazônia, especializada em produtos derivados da castanha.

O projeto levou cinco anos para chegar a esse resultado, e ainda não atingiu todas as suas metas. Nos próximos anos, o objetivo é melhorar a infra-estrutura e adquirir equipamentos para dar mais qualidade ao processamento da castanha. Com isso, a previsão é de aumento de 40% no preço do quilo do produto.

É preciso olhar mais para a região em questão para entender o sucesso da experiência. O Noroeste de Mato Grosso é uma região isolada e permeada de tensões e conflitos. Colniza, o mais distante, está na divisa com o Amazonas e Rondônia; são mais de mil quilômetros até a capital do Estado, Cuiabá.

Com a economia regional baseada principalmente na madeireira e na pecuária, quatro dos sete municípios envolvidos no projeto estão na lista dos maiores desmatadores divulgada pelo Inpe em janeiro deste ano. Por fim, a disputa por terra e a construção de obras em território indígenas acentuam os conflitos sociais na região, que no ano passado chegaram ao extremo de um prefeito e vereadores expulsarem uma equipe de ambientalistas e repórteres que trabalhavam na região.

Em um cenário como este, a experiência do manejo e extração da castanha reunindo índios e não-índios ganha um tempero especial: o dos inéditos viáveis explicitados pelo educador Paulo Freire há tantos anos. Um bom exemplo de ação que deveria virar política pública séria e consistente, em favor da conservação da Amazônia e dos seus povos.

Gisele Neuls, jornalista do ICV. As fotos que ilustram este artigo são do fotógrafo Laércio Miranda e foram cedidas pela equipe do projeto

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