Cientistas do Mundo todo alertam para ameaças ao Pantanal

Assessoria CPP – O desrespeito às leis ambientais e o uso desordenado dos recursos naturais já começam a provocar mudanças graves no equilíbrio do Pantanal Mato-grossense. O resultado de uma expedição científica promovida pelo CPP, Centro de Pesquisa do Pantanal, mostra que é preciso agir rapidamente para se preservar este ecossistema, que é reconhecido pela UNESCO como Reserva da Biosfera e abriga em seus 160.000km2 uma infinidade de espécies únicas.  "Reunimos pesquisadores de oito países para participar desta viagem e reconhecemos que há muito com que se preocupar.", alerta Paulo Teixeira de Souza Júnior, secretário-executivo do CPP e vice-coordenador do INAU, Instituo Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas.

A grande preocupação é com as mudanças no regime hidrológico do Pantanal, ou seja, modificações na circulação da água dentro do ecossistema. "O Pantanal é uma planície alagável, sua área inundada aumenta e diminui conforme os períodos de seca e de chuva. Mas a agricultura em larga escala já está começando a mudar esse padrão – que chamamos de pulso de inundação. Essa prática aumenta a compactação do solo e intensifica o assoreamento, pois leva sedimentos para dentro dos rios", explica Paulo Teixeira de Sousa Júnior.

O manejo inadequado na agropecuária  intensificou esse processo, trazendo uma mudança profunda nos ciclos de inundação.   Hoje, áreas que sofriam cheias em períodos definidos agora passam o tempo todo inundadas. "Isso afeta toda forma de vida que habita o Pantanal. Inclusive as populações tradicionais da região. Os ecossistemas pantaneiros são frágeis e podem sofrer grandes transformações a partir de alterações mínimas As conseqüências a longo prazo podem ser castatróficas", constata o especialista Wolfgang Junk, pesquisador ligado ao CPP e coordenador do INAU.

O assoreamento já ocorre em todos os rios do Pantanal e há casos extremos como o do Rio Taquari. As águas abandonaram seu leito e inundaram aproximadamente 5.000 km2, com grandes impactos tanto na biodiversidade quanto  na economia local. Um problema que está se alastrando "Me assustei também com o assoreamento do Rio Paraguai, quando chegamos mais próximos de Cáceres. Já está parecido com o Rio Taquari. Prevejo um futuro sombrio se nada for feito nas cabeceiras dos rios que deságuam no Paraguai em Mato Grosso", avalia a pesquisadora Emiko Resende, da Embapa Pantanal. A construção de hidrelétricas colabora para piorar o problema. Para os estudiosos é preciso haver uma análise mais acurada antes de ser feita a concessão para instalação dessas usinas. Há casos em que o custo ambiental e social delas é tão alto que ultrapassa os benefícios da geração de energia.

A pressão sofrida pelo aumento da pesca esportiva e a intensificação da pecuária são outras situações que alarmaram os pesquisadores. Eles defendem que haja um planejamento melhor para que as populações tradicionais não sejam prejudicadas. "O modelo de pecuária praticado pelos pantaneiros está perfeitamente integrado ao ecossistema, enquanto os sistemas intensivos podem comprometer de forma definitiva o habitat de diversas espécies de animais e plantas", comenta Paulo Teixeira de Sousa Jr. Ele também lembra que é preciso criar um modelo de navegação e transporte de cargas que seja compatível com as características naturais de navegabilidade do Rio Paraguai, sob pena de haver comprometimento de toda a fauna e flora existentes nesses cursos d´água.

O levantamento ganha ainda mais importância dentro da atual ameaça de escassez de água no mundo inteiro. O Pantanal é uma área úmida, um tipo de ecossistema que tem papel importante na manutenção dos estoques de água. "As áreas úmidas funcionam como esponjas. Elas absorvem a água e depois fazem a conexão para o lençol freático, promovendo a sua redistribuição", explica a pesquisadora Cátia Nunes, doutora em ecologia e conservação de recursos naturais.

Os participantes da expedição assinaram um documento que está sendo enviado às autoridades competentes com medidas a serem adotadas para proteger o Pantanal. "Os aspectos socioeconômicos das alternativas de gerenciamento devem ser consideradas e as negociações devem ser feitas entre vários grupos de pessoas que vivem na área ou a utilizam comercialmente. É difícil conciliar os interesses, mas prioridades precisam ser escolhidas", diz Hana Cizkova, do Instituto de Sistemas Biológicos e Ecológicos, da Academia de Ciências da República Checa.

Também participaram da Expedição, os pesquisadores Fábio Costa, da  Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Geraldo Damasceno, Arnildo Pott e Vali Joana Pott, da Universidade Federal de Mato  Grosso do Sul, José Augusto Ferrax, do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, Luisa Fernanda Ricaurte, da Universidade de Constaz, Marinez Marques, da Universidade Federal de Mato Grosso, Max  Finlayson, da Universidade Charles Sturt, na Austrália,  Shuquing An, da Universidade de Nanjing, na China, Stephen Mitchell, da Comissão de Pesquisas sobre a Água de Petrória, na África do Sul, Walfrido Moraes, da Embrapa Pantanal e Wolfgang Junk, da Núcleo de Estudos Ecológicos do Pantanal e do Centro de Pesquisa do Pantanal.

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