Por Bruna Pinheiro / Formad
Resistência, união e coragem marcam o cotidiano na vida das pessoas no campo. Debaixo de lonas, na beira da estrada, sem direitos básicos, como água, energia e saúde. Somado a isso, são também vítimas de uma série de violências, entre ameaças psicológicas e físicas, tentativas de assassinatos, despejos, perseguições e outras formas de intimidação. Ainda assim, Mato Grosso registrou em 2025 o maior número de manifestações em defesa da terra e da água. Foram cerca de 10,3 mil pessoas que não se calaram.
“O povo segue resistindo. O povo nos ensina como resistir, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas. Em anos anteriores, tivemos uma redução nas manifestações pelo medo de resistir, de denunciar. Essas pessoas resistem porque querem não só um lugar para morar, mas para viver, plantar, criar seus filhos, ter momentos de lazer. É uma vida mais digna que todos temos direito”, destaca o coordenador regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT-MT), Cristiano Cabral.

Os dados de resistência dos povos do campo, quilombolas e indígenas em Mato Grosso fazem parte do Cadernos de Conflitos no Campo 2025, lançado na última terça-feira (19), em Cuiabá (MT). Organizado pela CPT em todo o Brasil desde a década de 80, o relatório anual traz os registros e ocorrências dos conflitos agrários, demonstrando os impactos da desigualdade social e distribuição de terras sobre as populações do campo. O cenário não é diferente em Mato Grosso, o estado do agronegócio que é chamado por Cristiano, de “estado de exceção”, uma vez que é negado aos povos campesinos, indígenas e quilombolas o acesso a direitos básicos e fundamentais, além das mais diferentes formas de violência.
“A realidade dessas pessoas é muito triste e nos últimos anos foi agravada pelo avanço do agronegócio e a legitimação da violência no campo pelo Estado. Ao mesmo tempo que trazemos os números das ameaças, mortes, despejos e violações, não temos o registro de que um grileiro tenha sido preso. São mais de 97 mil vítimas em 10 anos e nenhum mandante preso até hoje, ou seja, vale a pena matar em Mato Grosso. E é a base do estado quem está matando o povo do campo”, alerta.
De acordo com o Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno da CPT (Cedoc), em 2025, foram registrados 63 conflitos no campo em Mato Grosso, que envolveram quase 54 mil pessoas. A maior parte dos casos está relacionada ao eixo de conflitos por terra, que somaram 53 ocorrências e atingiram 11.841 famílias. Lideram o ranking de principais impactados pelos conflitos as pessoas assentadas, posseiros e quilombolas.
Outro dado que chama atenção são as ações de pistolagem, com 200 registros ligados a ameaças, intimidações e atuação de grupos armados em áreas de conflito. Destaca-se ainda os casos de ameaça de despejos judiciais, são 4.701, um aumento de mais de 300% em relação ao ano anterior. Nesta categoria, a Pastoral registra as situações em que as famílias convivem com a possibilidade de despejo via Justiça.
A região Norte de Mato Grosso conta com 26 municípios envolvidos em conflitos, sendo a campeã no estado. O dado reflete um aumento de 36,8% em relação à 2024. No geral, o estado contabiliza 48 municípios com conflitos no campo, dado que também cresceu, 14,3%, comparado à 2024.
Reforma agrária, já!
A desigualdade agrária e social em Mato Grosso está entre os fatores causadores de conflitos entre proprietários de grandes áreas de terra e as famílias assentadas ou em acampamentos rurais. A situação foi discutida na mesa de análises da realidade agrária do estado e contexto jurídico, como parte da programação do lançamento do Caderno de Conflitos da CPT.
A professora do Departamento de Geografia da UFMT, Camila Salles, resgatou a origem dos conflitos fundiários no Brasil para traçar um paralelo com a realidade atual, em que o modelo do projeto de expansão agrícola se estruturou a partir de uma forte aliança entre diferentes frações do capital. “O relatório elucida muito bem como a violência tem sido utilizada como instrumento do uso da terra no nosso estado. Vale lembrar, um estado em que poucas pessoas são proprietárias de milhões de hectares e a bancada ruralista no Brasil representando 60% dos senadores”, destacou.
25O povo de luta em Mato Grosso (Foto: Bruna Pinheiro/Formad)No contexto jurídico, o defensor público federal, Renan Sotto Mayor, enfatizou a importância da mobilização população como instrumento de luta e conquista por direitos humanos. Ele também abordou a discrepância do mundo jurídico com a difícil realidade dos povos do campo. “Se não tiver o povo lutando, não ter reforma agrária. É a luta de vocês que conseguimos mobilizar o Direito para garantir o que é determinado na Constituição”, pontuou.
O Caderno de Conflitos está disponível no site da CPT.
Acesse: https://cptnacional.org.br/produto/conflitos-no-campo-brasil-2025/
* Com informações da CPT (foto de capa)